Vincent Van Gogh em Arles
Vincent van Gogh (1853 -1890) empreendeu dezenas de viagens. Estes deslocamentos se revelariam determinantes para o seu desenvolvimento artístico, inaugurando aquele que é amplamente considerado o seu período áureo. Um destes deslocamentos foi para Arles, onde conheceu Paul Gauguin. Esta mudança que decorreu, em parte, do seu imaginário literário, alimentado pelas leituras de Balzac, Zola, Maupassant e Flaubert.
Van Gogh eternizou com a pintura anterior, a casa amarela onde residiu na Place Lamartine em Arles. Ocupando um modesto quarto que também foi retratado pelo pintor.
Van Gogh manifestava em correspondência ao seu irmão, Theo, que a vida naquela região se revelava consideravelmente mais gratificante do que em paragens anteriores. Durante a sua estada de quinze meses em Arles, o artista manteve um ritmo de produção prodigioso, executando aproximadamente 200 pinturas, 100 desenhos e redigindo cerca de 200 cartas. Sobre o seu fervor criativo, o próprio afirmaria:
«Trabalho inclusivamente ao meio-dia, sob um sol pleno, e deleito-me com tudo isto, tal como uma cigarra. Meu Deus, se eu tivesse conhecido esta região aos vinte e cinco anos, em vez de chegar aqui aos trinta e cinco!» (Botton, 2003, p. 201).
Van Gogh justificava a sua partida de Paris para Arles pelo desejo de captar a essência do Sul e, simultaneamente, pela vontade de mediar a perceção do público sobre essa mesma geografia através do seu olhar. Para o pintor, o artista possuía a faculdade de transpor a realidade pictórica, sensibilizando o espectador para o tema retratado. Notavelmente, a obra de Velázquez serviu de filtro estético para a sua observação de França:
«Este restaurante onde me encontro é muito singular. É integralmente cinzento [...] um cinza de Velázquez — como em As Fiandeiras — e não falta sequer o raio de sol, estreito e feroz, que penetra por uma persiana, cruzando o espaço de forma oblíqua como num quadro de Velázquez [...]. Na cozinha, uma idosa e uma criada baixa e robusta, também em tons de cinza, branco e preto [...] é puro Velázquez.» (Botton, 2003, p. 202).
Outros mestres influenciaram as incursões cromáticas e lumínicas de Van Gogh em Arles: os crepúsculos remetiam para Monet, a luz matinal evocava Rembrandt, enquanto as jovens locais eram frequentemente descritas pelo artista como «um perfeito Vermeer». Todavia, apesar da vasta herança iconográfica sobre o sul de França, Van Gogh sustentava que os seus antecessores não haviam ainda esgotado o potencial da região, vislumbrando nela um manancial de matéria inexplorada.
Na sua produção artística, Gogh conferiu protagonismo estético aos ciprestes e olivais franceses, trazendo para o primeiro plano a organicidade dos troncos e da folhagem, forçando uma reavaliação daquela paisagem por quem nela habitava ou transitava.
Atualmente, um dos principais polos de interesse em Arles é o «Itinerário de Van Gogh», um percurso que atravessa os locais que serviram de mote às suas composições. Nestes pontos, o visitante confronta reproduções fotográficas das obras originais com a paisagem real. É comum, contudo, que os turistas sintam dificuldade em estabelecer uma correspondência imediata entre a obra e o lugar; isto deve-se à singularidade da gramática visual do artista, que privilegiava a carga subjetiva e emocional em detrimento do mimetismo realista. Através de distorções formais, omissões estratégicas e da expressividade arbitrária da cor, Van Gogh buscava alcançar o que considerava ser um realismo de maior profundidade.
Referência
Botton, A. (2003). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Rocco.

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