Vincent Van Gogh em Arles



O pintor de Girassóis, 1888. Retrato de Van Gogh por Paul Gauguin

Vincent van Gogh (1853 -1890) empreendeu dezenas de viagens. Estes deslocamentos se revelariam determinantes para o seu desenvolvimento artístico, inaugurando aquele que é amplamente considerado o seu período áureo. Um destes deslocamentos foi para Arles, onde conheceu Paul Gauguin. Esta mudança  que decorreu, em parte, do seu imaginário literário, alimentado pelas leituras de Balzac, Zola, Maupassant e Flaubert. 


A casa amarela, 1888. Museu Van Gogh, Amesterdão. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Casa_Amarela


Van Gogh eternizou com a pintura anterior, a casa amarela onde residiu na Place Lamartine em Arles. Ocupando um modesto quarto que também foi retratado pelo pintor.


Quarto em Arles (2.ª versão), 1889. The Art Institute of Chicago. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Quarto_em_Arles#/media/Ficheiro:Vincent_Willem_van_Gogh_135.jpg


Van Gogh manifestava em correspondência ao seu irmão, Theo, que a vida naquela região se revelava consideravelmente mais gratificante do que em paragens anteriores. Durante a sua estada de quinze meses em Arles, o artista manteve um ritmo de produção prodigioso, executando aproximadamente 200 pinturas, 100 desenhos e redigindo cerca de 200 cartas. Sobre o seu fervor criativo, o próprio afirmaria:


«Trabalho inclusivamente ao meio-dia, sob um sol pleno, e deleito-me com tudo isto, tal como uma cigarra. Meu Deus, se eu tivesse conhecido esta região aos vinte e cinco anos, em vez de chegar aqui aos trinta e cinco!» (Botton, 2003, p. 201).

 

Van Gogh justificava a sua partida de Paris para Arles pelo desejo de captar a essência do Sul e, simultaneamente, pela vontade de mediar a perceção do público sobre essa mesma geografia através do seu olhar. Para o pintor, o artista possuía a faculdade de transpor a realidade pictórica, sensibilizando o espectador para o tema retratado. Notavelmente, a obra de Velázquez serviu de filtro estético para a sua observação de França:


«Este restaurante onde me encontro é muito singular. É integralmente cinzento [...] um cinza de Velázquez — como em As Fiandeiras — e não falta sequer o raio de sol, estreito e feroz, que penetra por uma persiana, cruzando o espaço de forma oblíqua como num quadro de Velázquez [...]. Na cozinha, uma idosa e uma criada baixa e robusta, também em tons de cinza, branco e preto [...] é puro Velázquez.» (Botton, 2003, p. 202).

 

 

Outros mestres influenciaram as incursões cromáticas e lumínicas de Van Gogh em Arles: os crepúsculos remetiam para Monet, a luz matinal evocava Rembrandt, enquanto as jovens locais eram frequentemente descritas pelo artista como «um perfeito Vermeer». Todavia, apesar da vasta herança iconográfica sobre o sul de França, Van Gogh sustentava que os seus antecessores não haviam ainda esgotado o potencial da região, vislumbrando nela um manancial de matéria inexplorada.


Campo de trigo com ciprestes, 1889. Vincent van Gogh, Metropolitan Museum of Art.


Na sua produção artística, Gogh conferiu protagonismo estético aos ciprestes e olivais franceses, trazendo para o primeiro plano a organicidade dos troncos e da folhagem, forçando uma reavaliação daquela paisagem por quem nela habitava ou transitava.


Um dos destinos do Itinerário Van Gogh. Esquerda: Imagem do original. Direita: Foto atual do lugar. Fonte:https://www.vangoghgallery.com/in_his_steps/arles.html


Atualmente, um dos principais polos de interesse em Arles é o «Itinerário de Van Gogh», um percurso que atravessa os locais que serviram de mote às suas composições. Nestes pontos, o visitante confronta reproduções fotográficas das obras originais com a paisagem real. É comum, contudo, que os turistas sintam dificuldade em estabelecer uma correspondência imediata entre a obra e o lugar; isto deve-se à singularidade da gramática visual do artista, que privilegiava a carga subjetiva e emocional em detrimento do mimetismo realista. Através de distorções formais, omissões estratégicas e da expressividade arbitrária da cor, Van Gogh buscava alcançar o que considerava ser um realismo de maior profundidade.


Referência

Botton, A. (2003). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Rocco.

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